terça-feira, 9 de janeiro de 2018

O Corvo


Não é meu, mas adoro! 

"O Corvo" (Edgar Allan Poe - tradução: Machado de Assis)

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais."

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguém chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: "Com efeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."

Minh'alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro coa alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso,
Obra do vento e nada mais."

Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o corvo disse: "Nunca mais".

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: "Nunca mais".

No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora."
E o corvo disse: "Nunca mais!"

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: "Nunca mais".

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais".

Assim posto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranquilo a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."
E o corvo disse: "Nunca mais".

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o corvo disse: "Nunca mais".

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: "Nunca mais."

“Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua.
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
E o corvo disse: "Nunca mais".

E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Não sou capaz


Thrash, Elaine - "Da Depressão à Criação"

Dói

A cabeça dói
Não consigo mais pensar
Não sei o que imaginar

Sem previsões
Sem pretensões
Sem lágrimas pra chorar

O coração apertado
Dor que não passa
Saudade que mata
Mas arrependimento não há

A cabeça dói
De tanto se culpar
A consciência pesa, pois
Você se colocou nesse lugar

A cabeça dói
Não aguento mais rezar
Não sei como pode ser o fim
Mas não queria que fosse assim

A cabeça dói
E não parece querer parar!

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Eu sou o teatro!



Meu patrono ser o Senhor da uva
Me caiu como uma luva
Pois me modifico, tenho várias formas
De fruta à vinho que adoça a boca de damas

Sou capaz de te modificar
Posso te fazer sorrir ou se emocionar
Mas minha missão é mais do que agradar

Posso te encantar, te fazer pensar, te incomodar
E até mesmo te ensinar
Sem que perceba, seu inconsciente posso alcançar

Trago em mim todo e qualquer tipo de gente
Por isso preconceitos e pudores não me cabem
Então não seja intransigente

Me respeite, pois tenho história
Antes de me julgar, conheça minha trajetória

Minhas seguidoras já foram comparadas às meretrizes
Uma ofensa à nobre função das atrizes
Mas se considerar a entrega incondicional
A comparação não soa tão mal

Fui (e ainda sou) marginalizado
Por vezes desprezado
Um tanto subestimado e não glamourizado
Como outras artes do mundo valorizado

Por minha sabedoria de ancião
Alguns me seguem como se fosse religião
E como uma arte que se herda
Desejo a todos muita merda!

http://www.desvendandoteatro.com/

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Nu

Livra-te do desimportante concreto
Afasta-te do que é breve e secreto
Liberte o simples quando oportuno discreto

Desate os nós
Purgue as falhas
Dispense o fugaz

E já que somente tu podes te sentenciar
Mantenha tua honra e...
Despes-te de máscaras
Despes-te de amarras
Despes-te de controle
Despes-te de julgamentos
Despes-te de tudo

Sejas livre!
Sejas só!
Sejas tu!
Sejas nu!

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Olhar

No fundo do meu olhar
Reside toda a minha essência
E ao vê-lo brilhar
Encontrará minha resiliência
 


terça-feira, 17 de maio de 2016

Dias e dias

Semanas com sete dias... Anos com trezentos e sessenta e cinco (às vezes seis)... E nenhum deles é igual.

Cada dia é único e deve ser assim! Alguns são vazios, tristes, cinzentos e passam devagar. Outros são alegres, produtivos, ensolarados e passam sem que a gente perceba.

O que realmente não enxergamos é que muitas vezes podemos escolher como serão nossos dias. Se estamos felizes, os dias são cheios de vida e cor. Se nos deixamos abater, os dias são escuros e sem emoção.

Um dia ao lado de quem se ama, por exemplo, é normalmente um dia alegre. Mas não custa deixar a palheta de cores à mão para o caso de começar a desbotar.

Naqueles dias sem cor é preciso ter jogo de cintura e procurar colorir a todo custo. Mas se as cores disponíveis não forem o suficiente pra dar vida a tudo, deve-se fazer o possível pra tinta render o bastante para avivar ao menos o mais importante: o coração! Esse não pode perder o tom jamais!

Se tem algo que devemos cuidar para nunca perder a tonalidade, é o coração. Se ele estiver incolor, tudo a nossa volta se torna apático, frio. Nos tornamos pessoas tristes,  rancorosas e os dias ficam cinzentos e escuros. Ao colorir o coração, com aquele vermelho bem forte e bonito, refletimos cores a todas as outras coisas deixando o dia claro, ensolarado, com um belo céu azul e um esplêndido alaranjado ao entardecer, encerrando com tantas estrelas brilhantes que nem se pode contar numa noite de céu limpo e lua cheia.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Simpatia pro ano novo

... Coloca dinheiro em baixo do prato de lentilha...
... Veste branco, amarelo, vermelho pro amor...
... Pula sete ondas...
... Conta semente de romã e guarda as de uva...
... Joga uma gota de champagne no chão e diz que vai guardar a rolha...
... Acende vela...
... Faz milhões de planos, lista promessas e traça metas...

... Mas de nada serve tudo isso se seu comportamento permanece o mesmo...

... O mundo não vai mudar porque um dígito no ano mudou...

... Você não vai mudar se não se movimentar...

... Dinheiro não cai do céu por causa da cor da sua roupa na virada...

... Amores não acontecem se você não estiver aberto e disposto...

... A paz não se faz se não tivermos amor ao próximo...

... Enfim, o ano passa, a página vira, mas você continua o mesmo... Só se quiser!

Mais que feliz ano novo... Lhe desejo uma feliz vida nova!

sábado, 3 de outubro de 2015

Libra em dia de pesagem

Ser da balança e pôr na balança todos os seus balanços
Ser justo e não deixar que nenhum lado pese mais
Ser justo e analisar conquistas, feitos, vitórias
E mesmo assim admitir erros, falhas, fracassos

Tanta coisa planejada
Tantas outras realizadas sem planejamento

Em dia de colocar a vida em balanço
É difícil não se balançar
Não deixar o lado sonhador se frustrar
E nem o pé no chão se afundar e acomodar

Balancear a própria vida de forma justa
Cabe à própria justiça falha pela proximidade
Mas distanciar-se também não seria a mais justa forma

Mas afinal, o que pesa na balança?
Sua justiça pessoal e egoísta
Ou a falsa moral imposta pela humana justiça

Há de se pôr a vida na balança
Por mero balanceamento
Sem julgamento
Sem arrependimento
Sem poder voltar no tempo

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Em ondas...

Quando o coração aperta e a garganta dá um nó
É pros teus braços que me transporto

Em ondas tudo se vai
Em ondas tudo vem

Quando as lágrimas insistem em cair
Se misturam com tua imensidão e então parecem não existir

Em ondas tudo se vai
Em ondas tudo vem

Pra ti tudo posso falar
E tudo o que ouço é o vosso cantar

Canto que me encanta e me faz serenar

Em ondas tudo se vai
Em ondas tudo vem

Estou sentada na areia
Com os pés ao vosso alcance
Não há nada em que não creia
Não há mal que me balance

O sal cura as feridas
A água banha a alma
E como sempre...

Em ondas tudo se vai
Em ondas tudo vem

A ti, ouvinte de tantos momentos
Não peço nada, pois já me dá tudo que preciso
Só não me tire da proteção de teu manto
Siga emanando-me seus encantos
Me permita continuar ouvindo teu canto

E eu sei que
Em ondas tudo se vai
E em ondas tudo vem